16. A auto Punição e a família

A parte mais difícil da doença não é quando você ainda está cega por ela. Lembro que sentia até um certo orgulho no começo por nem precisar do dedo para me livrar do peso da gula.

Quando eu comecei a acordar e vi o caminho que estava andando me senti fraca e irresponsável, senti a dor da minha família, o que me desesperava mais, uma tristesa profunda, uma vergonha e uma vontade de me esconder do mundo, de todos.

É horrível e doloroso o despertar! Eu não quereria ser mais bulímica, mas era o que eu era! Eu não gostava de fazer aquilo, mas não conseguia parar! Mentira, eu adora aquela sensação, adorava me sentir aliviada, adorava passar despercebida, odiava quando alguém desconfiava. Eu precisava daquilo, mais do que qualquer coisa nessa vida!
Porque eu não era forte igual as outras pessoas?
Como os outros entenderiam? Ninguém jamais entederia!

EU VIVI UM AMOR E ÓDIO COM ESTE DISTURBIO! EU ME PUNIA!
Antes de vomitar, eu ficava um tempo me olhando no espelho procurando defeitos e imperfeições. Eu cutucava meu rosto inteiro atrás de espinhas e gravos que muitas vezes não existiam. Eu apertava tanto o meu rosto para sair algo, que outras vezes acabei me ferindo com a unha.

NAO SABIA O PORQUE EU TINHA ESTA REAÇÃO. Mas era uma forma de punição, ou de tentar me segurar ao máximo antes de vomitar. Algumas vezes consegui sair do banheiro com o rosto vermelho e sem vomitar, mas muitas outras acontecia o pior. Eu me machucava e caía no vomito!

Não sei se alguém já se puniou por ser bulímico/a, no meu caso era inconsciente. Em outros casos quando não regugitava a comida e não espremia meu rosto, eu ficava uma pessoa grossa, mal humorada e atingia aqueles que mais me amavam e me apoiavam.

Isso só me lembra de pedir desculpa a todos que um dia eu atingi e pedir com todo carinho e amor aos pais, amigos e familiares de pessoas que tem a bulimia que compreendam esta explosão de humor, que perdoem nossos deslizes. A dor da cura, as incertezas, as grosserias acontecem porque estamos passando por uma transformação, uma luta difícil e penosa. Mas mais do que nunca, esta é a dor do acordar e do olhar pra dentro! É nessa hora que o apoio familiar vai fazer uma grande diferença no nosso presente e futuro!


Texto de . Potira Marie @copyrights reserved

Comentários

  1. Oi Potira. Achei teu blog há alguns dias. Venho lendo e a cada dia percebo mais semelhanças entre as pessoas bulímicas. Minha irmã vive esta doença há 10 anos. Ela tem 19 anos. Minha família está completamente desestruturada pela falta de resultados nos tratamentos. Nos unimos, conversamos com ela, brigamos pelas agressividades que recebemos dela (inclusive físicas), aconselhamos, choramos juntos e estamos seguindo a risca o tratamento da psicologa, psiquiatra e nutricionista. Nada parece adiantar. É como um ciclo... Ela passa um tempinho melhor e de repente as coisas voltam com mais forças. Ela nega a doença. Mente. Tem dias que ela fica super depressiva e outras vezes polemica, agressiva. Eu sou um problema para ela por achar que sou mais bonita. Eu amo a minha irmã e quero vê-la curada. Eu tenho 21 anos e acho que estou enlouquecendo junto com tudo o que essa doença traz de ruim. As vezes me pego chorando, de repente. Realmente é muita pressão. Gostaria de saber o que poderia fazer para ajudar. Já que tu viveste uma situação similar e a mesma doença, talvez possas me ajudar, dar algum conselho. Obrigada.

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  2. Tenho 28 anos, bulimia desde os 15 e ainda não me curei!!É exatamente isso que eu sinto!! Aperto meu rosto, meu corpo, me detono!! Também não preciso enfiar nada na garganta pra vomitar... e sinto uma sensação de culpa, de nojo de mim mesma... e ao mesmo tempo de alívio pois joguei toda aquela porcaria de comida fora! Sou agressiva muitas vezes com os familiares mais próximos, sou agressiva comigo! Dói ser eu mesma!

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